ARTIGOS

DOI: http://dx.doi.org/10.25757/invep.v9i2.188

 

Plano educacional individualizado: uma estratégia de inclusão e aprendizagem nas aulas de Educação Física

 

Individualized educational plan: a strategy of inclusion and learning in Physical Education classes

 

Plan éducatif individualisé: une stratégie pour l'inclusion et l'apprentissage dans les classes d'éducation physique

 

Plan educativo individualizado: una estrategia de inclusión y aprendizaje en las clases de Educación Física

 

Evelline Cristhine Fontana, Gilmar de Carvalho Cruz e Luana Aparecida de Paula

UNICENTRO – Universidade Estadual do Centro Oeste.

Contacto

 


Resumo

O objetivo do estudo foi elaborar e aplicar o Plano Educacional Individualizado (PEI) nas aulas de Educação Física em uma escola especial, como estratégia de inclusão e aprendizagem. A pesquisa partiu do seguinte problema: De que forma o PEI pode contribuir para a aprendizagem nas aulas de Educação Física? Assim, o PEI foi elaborado de forma colaborativa, conforme os pressupostos da pesquisa-ação colaborativa. As intervenções ocorreram no campo do estágio, em uma escola especial  com uma aluna com deficiência física e intelectual. Focou-se na oratória e nos movimentos dos membros superiores. O conteúdo Dança sustentou a organização do PEI. Durante o período das intervenções notou-se melhoras significativas no desenvolvimento da aluna, especialmente na oratória mais desinibida, nos movimentos de locomoção e coordenação. Considera-se que o PEI mostrou-se como uma ferramenta positiva para o ensino da Educação Física no contexto da Educação Especial.

Palavras chave: Práticas pedagógicas; Plano Educacional Individualizado; Educação Física.

 

Abstract

The study’s objective was to elaborate and apply the Individualized Educational Plan (PEI) in Physical Education classes in a special education school, as a strategy of inclusion and learning. The research started with the following problem: How can PEI contribute to learning in Physical Education classes? Thus, the PEI was elaborated in a collaborative way, according to the presuppositions of collaborative action research. The interventions occurred in the field of the internship, in a special education school with a student with physical and intellectual disability. It focused on the oratory and movements of the upper limbs. The PEI’s organization was supported for Dance. Significant improvements in student development were noted during the intervention period, especially in the most uninhibited speech, locomotion and coordination movements. It is considered that PEI has been shown to be a positive tool for the teaching of Physical Education in the context of special education.

Keywords: Pedagogical practices. Individualized Educational Plan, Physical Education.

 

Résumé

L'objectif de cet étude a été d'élaborer et d'appliquer le Plan d'Education individualisé (PEI) dans les classes d'Éducation Physique dans une école spécialisée, en étant une stratégie d'inclusion et d'apprentissage. La recherche a eu d´abord  le problème suivant: Dans quel manière le PEI peut-on  contribuer à l'apprentissage dans la classe  d'Éducation Physique? Ainsi, le PEI a été élaboré d´une forme collaborative, commeles conditions de la recherche-action collaborative. Les interventions ont eu lieu sur le terrain du stage, dans une école spécialisée avec une élève  en ayant une déficience physique et intellectuelle. On s´est focalisée sur l'oratoire et les mouvements des membres supérieurs. Le contenu de la Danse a soutenu l'organisation du PEI. Pendant le périoded´intervention ont été constatées des améliorations significatives du développement de l´élève, en particulier a l´oratoire plus libre, dans le mouvement de  locomotion et de coordination, il est considéré que le PEI  il a été démontré comme un  outil positif pour l’enseignement de l’Éducation Physique dans le contexte de la Éducation Spéciale.

Mots-clés: Pratiques pédagogiques. Plan Éducatif individualisé. Éducation Physique.

 

Resumen

El objetivo del estudio fue elaborar y aplicar el Plan Educativo Individualizado (PEI) en las clases de Educación Física en una escuela de educación especial, como una estrategia de inclusión y aprendizaje. La búsqueda provino del siguiente problema: Cómo puede PEI contribuir al aprendizaje en las clases de educación física? Por lo tanto, el IEP fue diseñado en colaboración, de acuerdo con los supuestos de la investigación de acción colaborativa. Las intervenciones tuvieron lugar en el campo de prácticas pedagógicas, en una escuela de educación especial con una estudiante con discapacidades físicas e intelectuales. La intervención se ha centrado en la oratoria y los movimientos de las extremidades superiores. El contenido Bailar apoyó la organización de PEI. Durante el período de intervención, se observaron mejoras significativas en el desarrollo del estudiante, especialmente en la oratoria más desinhibida, en los movimientos de locomoción y coordinación. El PEI se considera una herramienta positiva para la enseñanza de la educación física en el contexto de la educación especial.

Palabras clave: Prácticas pedagógicas. Plan Educativo Individualizado. Educación Física.

 

INTRODUÇÃO

A inclusão escolar vem sendo discutida no Brasil com maior intensidade a partir da década de 1990, de acordo com algumas movimentações mundiais. Alguns documentos do cenário mundial, como a Declaração Mundial de Educação para Todos (1990) e a Declaração de Salamanca (1994), favoreceram nas discussões e nas formulações de textos legais em torno da inclusão escolar e da Educação Especial no cenário nacional.

Na última década do século XX e na primeira década do século XXI, no Brasil várias políticas foram criadas com o intuito de melhorar a escolarização dos alunos com algum tipo de deficiência, como a Política Nacional de Educação Especial (1994), Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (1996), Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica (2001), Programa de implantação das Salas de Recursos Multifuncionais (2007), Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008), políticas essas que vêem para reafirmar um direito constitucional “o direito de toda pessoa à educação”.

Nesse movimento, diversos estudos e autores vêm se debruçando sob projetos de pesquisa e políticas educacionais para minimizar a exclusão de alunos com as mais diversas dificuldades de aprendizagem, deficiências, diversidade cultural e racial, fatores que tem gerado exclusão, marginalização e preconceitos nos processos de ensino e aprendizagem na escola.

O presente estudo, foca nas práticas pedagógicas direcionadas para alunos que apresentem Necessidades Educacionais Especiais1 (NEE), especificamente nas aulas de Educação Física em uma escola especial. Portanto, esse trabalho teve como proposta apresentar estratégias pedagógicas para uma aluna com deficiência física e intelectual, por meio de um Plano Educacional Individualizado (PEI) aplicado nas aulas de Educação Física.

Segundo Glat e Blanco (2011), o processo de escolarização de sujeitos que tenham limitações físicas, sensoriais, diferenças no desenvolvimento e comunicação, exigem uma ressignificação das práticas pedagógicas, da compreensão dos processos de ensino e aprendizagem, da organização curricular, bem como da cultura escolar. Nesse sentido, as práticas pedagógicas direcionadas para alunos com NEE[1] e em consonância com as políticas educacionais inclusivas, podem contar com uma ferramenta de ensino e inclusão, por meio da elaboração e aplicação do PEI, utilizado “[...] como uma estratégia de organização da proposta curricular para esse alunado” (Glat, Vianna & Redig, 2012, p.80)

O PEI é um plano de ação que individualiza e personaliza o ensino para um determinado sujeito, com metas acadêmicas e objetivos de acordo com as suas necessidades e singularidades, comvistas a favorecer o processo de ensino e aprendizagem do aluno (Siqueira, Mascaro, Vianna, Silva & Redig, 2012).

O PEI como uma possibilidade para a aprendizagem e inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais, é algo que já está previsto na legislação educacional nacional e orienta Esse termo também está na Declaração de Salamanca, de 1994, que se refere a todas aquelas crianças ou jovens cujas necessidades educacionais especiais se originam de deficiência ou dificuldades de aprendizagem sobre sua construção:

 

[...] alunos com necessidades educacionais especiais devem ter um Plano Individualizado de Ensino, quando se fizer necessário, podendo ser elaborado com apoio do ensino especial no início de sua vida escolar, e por ela atualizada continuamente, em função de seu desenvolvimento e aprendizagem. Esse Plano é o ponto fundamental de sua vida escolar, norteador das ações de ensino do professor e das atividades escolares do aluno (Brasil, 2000, p.24).


A orientação legal reforça a ideia da colaboração entre profissionais que atuam em contextos inclusivos. Vianna, Silva e Siqueira (2011) reforçam que a busca por novas práticas pedagógicas que favoreçam e atendam as diferentes demandas existentes na sala de aula, é um caminho a ser construído pelo coletivo, por meio da reflexão sobre a ação, da dialogia e da interlocução.

Em relação ao processo de ensino e aprendizagem de alunos com algum tipo de deficiência, Glat e Pletsch (2009), afirmam que:

Não há uma única forma de atender às necessidades educacionais de todos os alunos com deficiência, isto é, não há um programa padrão, uma única oferta de serviço, um único local onde a educação seja oferecida e um currículo único (s/p).

Neste bojo, vem a discussão sobre como adequar o planejamento de ensino e aprendizagem dos sujeitos com deficiência no contexto da Educação Física - sendo essa uma disciplina curricular obrigatória na Educação Básica (Brasil, 1996), considerando as singularidades e possibilidades do aluno, sem perder de vistas o objetivo primordial da escola que é garantir que todos os alunos tenham acesso ao currículo.

Pensar no ensino da Educação Física para alunos com deficiência é algo vem desafiando professores, visto que vivemos em uma cultura que valoriza de forma exacerbada as habilidades motoras e cognitivas. Ao discorrer sobre Educação Física e inclusão escolar torna-se inevitável alguns questionamentos sobre essa dicotomia: Como atender as diferenças motoras e cognitivas nas aulas de Educação Física? Como garantir que um aluno com deficiência não fique anos e anos na escola realizando a mesma tarefa sem avanços significativos? Como avaliar a aprendizagem e participação do aluno nas aulas de Educação Física?

Diante tais questionamentos, é necessário pensar em novas formas de ensino e aprendizagem, considerando que na escola não temos alunos com o mesmo padrão de aprendizagem, por isso a necessidade de não ensinar de forma padronizada, o ensino carece personalização.

A utilização do PEI nas aulas de Educação Física como propósito de inclusão, objetiva auxiliar os professores de Educação Física a compreender as necessidades dos alunos, para então, estabelecer metas, objetivos e realizar ajustes no currículo, bem como, modificações metodológicas especificas para as aulas de Educação Física (Munster, Lieberman, Salamot-Rivera & Houston-Wilson, 2014).

Em síntese, a inclusão e acesso ao currículo de alunos com NEE na escola comum e/ou especial requerem novas formas metodológicas, pedagógicas e avaliativas, para tanto, é necessário o comprometimento, participação e colaboração de profissionais da educação que são responsáveis pelo processo de escolarização de todos os alunos. Portanto, é pertinente pensar uma nova concepção de inclusão escolar, com a participação ativa de todos os envolvidos no processo de escolarização dos alunos.

 

METODOLOGIA

De acordo com as características e objetivos do estudo, a pesquisa caracteriza-se como Pesquisa-ação, metodologia em que o pesquisador ao mesmo tempo em que investiga, constrói as possibilidades de intervenção. Conforme Thiollent (2011, p. 14):

A pesquisa-ação baseia-se em uma metodologia de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada com estreita associação com uma ação ou com resolução se um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo.

Para a efetivação da pesquisa, foram utilizados os pressupostos da pesquisa-ação colaborativa, que envolveu a participação dos pesquisadores e da professora de Educação Física da escola especial, campo de coleta dos dados. Thiollent (2011) chama atenção que a pesquisa consiste em uma ação das pessoas envolvidas no problema que foi identificado com caráter de investigação e intervenção.

A pesquisa foi realizada na escola da Associação de Pais e Amigos Excepcionais (Apae), única escola de educação especial do município de Irati-Paraná, a escolha da escola justifica-se por apresentar uma realidade escolar que necessita de um trabalho pedagógico personalizado, de acordo principalmente com as singularidades cognitivas e motoras dos alunos.

As intervenções ocorreram nas aulas de Educação Física durante o ano letivo de 2017, em uma turma da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Educação Especial, ambas são consideradas modalidades de ensino pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (1996) e encontram-se no interior de nosso sistema educacional. Reconhece-se que as modalidades presentes no contexto do estudo são áreas de conhecimento e necessitam de aprofundamento de estudos sobre suas especificidades de ensino, porém a pesquisa foca nas aulas de Educação Física e na elaboração e aplicação de um Plano Educacional Individualizado.

A turma em que foram realizadas as intervenções pedagógicas era composta por sete alunos com deficiência física e intelectual, a dependência da cadeira de rodas é uma característica comum entre eles. No primeiro momento da pesquisa, foi realizada uma sondagem, por meio de observações e atividades pedagógicas, que permitiram identificar características de aprendizagem de cada aluno.

A partir dessa aproximação inicial com o contexto da escola e especificamente com a turma em que seriam realizadas as intervenções profissionais, foi elaborado um plano de intervenção pedagógica com vistas a atender de forma satisfatória as necessidades de aprendizagem de cada aluno. Nesse sentido, identificou-se uma aluna com condições específicas de aprendizagem e participação em relação aos demais alunos, momento em que ficou evidente a necessidade de um trabalho pedagógico personalizado para atender suas demandas específicas de aprendizagem.

Para a elaboração do plano de intervenção, foram realizadas observações das aulas de Educação Física, durante quatro semanas consecutivas que contribuíram para a escolha da aluna a participar do estudo. Portanto, a coleta de dados esteve presente em todas as etapas da pesquisa, desde as primeiras observações para a elaboração, aplicação e avaliação do PEI. Essa tarefa de escolha da aluna foi realizada, por meio de um trabalho colaborativo, com a professora de Educação Física da escola.

A escolha da aluna justifica-se a partir dos seguintes motivos: por ser a única aluna que tinha a oratória preservada na turma, a mesma se expressava oralmente muito pouco e de forma retraída; apresentava ainda uma condição diferente que os demais, mesmo sendo usuária da cadeira de rodas, a aluna consegue caminhar com dificuldades, devido a uma atrofia nos membros inferiores. As condições que a aluna apresentava à colocavam teoricamente e funcionalmente em uma situação de aprendizagem privilegiada em  relação aos demais alunos, porém por serem características se distanciavam da realidade comum da sala, não havia um investimento pedagógico que explorasse as condições que ela apresentava.

Segundo Nascimento (2011), a base para a elaboração do PEI deve priorizar tarefas e avaliações que permitem o atendimento as necessidades do aluno, para isso é importante que se faça uma avaliação do nível de desenvolvimento do aluno, antes da construção do PEI e ao término na aplicação do PEI.

A elaboração do PEI passou por algumas fases, como a escolha da aluna, estudo teórico sobre o assunto, estudo das características (necessidades e pontecialidades) da aluna, preenchimento do inventário educacional e da ficha de avaliação da aluna, essa investigação preliminar permitiu identificar alguns aspectos como, experiências motoras anteriores e as preferências pessoais em relação aos conteúdos da Educação Física. Após a junção desses aspectos foi elaborado o PEI para as intervenções nas aulas de Educação Física.

De acordo com Cruz, Mascaro e Nascimento (2011) o PEI se constitui basicamente de três etapas, sendo elas:

1. A identificação, que é a avaliação preliminar para a identificação do aluno com necessidades específicas, considerando as possíveis adaptações curriculares e mudanças ambientais;

2. A avaliação, em si, denominada de avaliação compreensiva, que busca determinar quais as necessidades educacionais, considerando o que o aluno já sabe. Tais constatações apontam para a elaboração de um Plano Educativo Individualizado (PEI);

3. A intervenção, que é a aplicação do Plano Educativo Individualizado com a reavaliação do aluno (Cruz, Mascaro & Nascimento, 2011, p.4).

O PEI foi construído a partir de um plano de intervenção pedagógica maior, que estabelecia objetivos comuns para a turma, porém os encaminhamentos metodológicos eram direcionados para valorizar as condições especificas de aprendizagem que a aluna apresentava, fato que não impediu o cumprimento dos objetivos gerais da turma. Podemos entender esse exercício, como um projeto singular dentro de uma proposta mais ampla.

Foram realizadas dez intervenções profissionais, cada uma com duração de cinquenta minutos, uma vez por semana, entre o período de julho e outubro de 2017. Entre os conteúdos estruturantes da disciplina de Educação Física, foram elencados, a dança e jogos e brincadeiras para as intervenções, conteúdos de ensino que permitiam contemplar as demandas da turma e atender as necessidades singulares da aluna.

De acordo com as Diretrizes Curriculares de Educação Física do Estado do Paraná (2008), os conteúdos da Educação Física que organizam o trabalho docente são determinados a partir dos elementos da cultura corporal do movimento, denominados no documento orientador como conteúdos estruturantes, que são compostos pela dança, jogos e brincadeiras, esporte, ginástica e lutas.

Após a elaboração do PEI, foi pensada em estratégias de ensino para as aulas de Educação Física, com o intuito de alcançar os objetivos estabelecidos para a aluna, ao observar um interesse e preferência pela a música, priorizou-se o conteúdo de dança como estratégia metodológica, visto que a dança permite trabalhar a habilidade funcional, a consciência e expressão corporal, fatores do movimento, percepção rítmica, cantar e dançar (Paraná, 2008).

Como meta final desse processo, foi proposta a apresentação de uma coreografia cantada, que permitisse que a aluna percebesse e conhecesse melhor as partes do seu corpo, bem como, que auxiliasse na sua comunicação corporal e verbal.

As atividades, os planos de aula, o projeto de intervenção, as observações, os registros escritos e outros aspectos utilizados no decorrer do estágio contribuíram para a avaliação do PEI e análise dos resultados.

 

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Elaboração e aplicação do PEI

De acordo com os pressupostos da pesquisa ação, o estudo foi realizado de forma colaborativa, por meio de uma ação coletiva entre pesquisadores e a professora de Educação Física da escola de educação especial. Por meio desse trabalho, foi possível observar que a implementação de novas práticas pedagógicas e a personalização do ensino demandam tempo de investigação e comprometimento com os objetivos traçados, e mesmo em período pequeno de intervenções, foram efetivadas práticas pedagógicas que podem inspirar um repensar das práticas de ensino no contexto educacional inclusivo.

Para a efetivação da proposta de trabalho, foi realizado um estudo minucioso sobre o instrumento que estava sendo utilizado como um meio de inclusão e aprendizagem da aluna foi participante do estudo. De acordo com Glat (2012), o Plano Educacional Individualizado se constitui de:

Um registro avaliativo escrito, formulado em equipe, que busca as respostas educativas mais adequadas para as necessidades específicas apresentadas em processos de escolarização de estudantes que exigem caminhos alternativos para sua aprendizagem (p.84).

Nesse sentido, o primeiro passo para a construção do PEI, foi o preenchimento de um inventário educacional, uma espécie de ficha de informações, que teve como objetivo buscar informações sobre as habilidades escolares da aluna. O inventário foi adaptado de Pletsch (2009), que consiste em um instrumento composto por questões relacionadas a comunicação oral,  raciocínio lógico e matemático. Já, as questões relacionadas aos movimentos motores da aluna foram levantadas por meio de observações e informações fornecidas pela professora de Educação Física.

O inventário permite uma avaliação das habilidades que o aluno possui e as dificuldades que ainda apresenta para aprendizagem e participação nas aulas, a partir das informações do inventário é possível a elaboração do PEI (Glat, Vianna & Redig, 2012).

O preenchimento do inventário, assim como a construção do PEI, contou com a ajuda da professora de Educação Física que vinha acompanhando a aluna nos últimos anos letivos, assim sendo, forneceu subsídios essenciais, que permitiram a construção e aplicação do PEI.

A partir das informações obtidas por meio do inventário, de diálogos e considerações realizadas entre professora e pesquisadores, deu-se inicio a elaboração do PEI(Quadro 1). O PEI estrutura-se em duas partes, na primeira elencam-se as necessidades de aprendizagem, metas, prazos e recursos. A segunda parte trás os objetivos, conteúdos, prazos, avaliações e observações, pontos que auxiliam no planejamento das aulas de acordo com as metas estabelecidas para a aluna, conforme modelo utilizado pelo grupo de pesquisa “Inclusão e aprendizagem de alunos com necessidades educacionais especiais: práticas pedagógicas, cultura escolar e aspectos psicossociais”, ligado ao Programa de Pós Graduação da UERJ.

Glat, Vianna e Redig (2012, p.85) discorrem sobre a estrutura do PEI:

No PEI são registradas as necessidades educacionais especiais da criança ou jovem, com base na observação e avaliação de sala de aula e nas informações complementares disponibilizadas pelos participantes no processo e integra o processo educacional individual do aluno.

Ressalta-se que mesmo sendo um plano individualizado de ensino, por estar inserido nas aulas de Educação Física, para a elaboração do PEI, foi respeitado o planejamento de ensino da professora da disciplina. Assim, o plano buscou estar de acordo com as propostas curriculares e ao mesmo tempo organizado de forma que respondesse as necessidades especificas de aprendizagem da aluna que estava participando da pesquisa.

As necessidades educacionais da aluna estavam relacionadas ao estímulo da oratória, visto que era a única aluna que tinha a oratória preservada na turma, mas que pouco se expressava e ao desenvolvimento da coordenação motora, com foco na valência motora força, uma valência necessária para sua locomoção com a cadeira de rodas, a qual permite uma certa autonomia a aluna.

Com as necessidades priorizadas a serem trabalhadas, e após a elaboração do PEI, foi pensada em estratégias de ensino para as aulas de Educação Física, com o intuito de alcançar os objetivos traçados para a aluna. O conteúdo de dança foi utilizado como principal estratégia metodológica que permitiu trabalhar as habilidades funcionais, consciência e expressão corporal, coordenação motora, percepção rítmica, e o estímulo a oratória por meio do cantar.

Como meta final desse processo foi proposta a apresentação de uma coreografia, que contemplasse os objetivos definidos, os quais estavam atrelados as necessidades identificadas da aluna identificadas no decorrer do processo. Para a elaboração da coreografia foi realizada uma sequência pedagógica que abordou os elementos essenciais para a realização da mesma, conforme exposto no quadro 2 que detalha as estratégias de ensino e aprendizagem utilizadas no PEI.

Importante sinalizar que a coreografia foi elaborada a partir de informações prévias sobre aluna observadas durante as aulas de Educação Física e contou com a participação da mesma, inclusive na escolha da música, momento em que se começou estimular suas expressões. A coreografia da dança trouxe elementos que estimulassem a oratória, coordenação motora e força.

Portanto, o PEI foi utilizado durante as aulas de Educação Física, e por meio da elaboração do coreografia e das aulas para a execução da coreografia foram trabalhadas as questões definidas no PEI. Como meta final desse processo, foi proposta a apresentação da dança, composta pela coreografia e canto, para os professores e alunos da classe. Para esse momento, teve-se o cuidado de preservar a integridade emocional da aluna para que a tarefa final fosse prazerosa e não desconfortável para a mesma. A aluna mostrou-se estar segura e durante a apresentação final demonstrou prazer e satisfação ao realizar a coreografia composta por movimentos simples e complexos acompanhados do seu canto.

 

Procedimentos e avaliação do PEI

O processo avaliativo do PEI foi realizado durante todas as aulas de Educação Física, como parte integrante do processo de ensino e aprendizagem, caracterizando-se uma avaliação processual. A avaliação continua permitiu repensar as estratégias de ensino em alguns momentos do trabalho, a qual indicou melhores caminhos a serem percorridos durante o processo de ensino e aprendizagem. Para Libâneo (1994), a avaliação é uma tarefa complexa contínua.

Uma tarefa didática necessária e permanente do trabalho docente, que deve acompanhar passo a passo o processo de ensino e aprendizagem. Através dela, os resultados que vão sendo obtidos no decorrer do trabalho conjunto do professor e dos alunos são comparados com os objetivos propostos, a fim de constatar progressos, dificuldades, e reorientar o trabalho para as correções necessárias. A avaliação é uma reflexão sobre o nível de qualidade do trabalho escolar tanto do professor como dos alunos (Libâneo, 1995, p.95).

Para uma escola denominada inclusiva, a avaliação é um componente primordial para a organização das ações docentes, por meio dos dados coletados pela avaliação é possível definir estratégias de forma a atender as necessidades e interesses dos alunos, favorecendo seu desenvolvimento (Poker et al. 2013).

No que tange a avaliação de alunos com deficiência cognitiva, Pletsch e Glat (2012) ressaltam que ainda há uma compreensão atrelada a uma concepção médica que restringe as possibilidades de aprendizagem e desenvolvimento do sujeito. Por isso, a necessidade de compreender que as dificuldades que surgem durante o processo de ensino e aprendizagem requerem intervenções pedagógicas que não serão encontradas em um diagnóstico clínico. Assim sendo, as práticas de ensino estão estritamente relacionadas aos processos pedagógicos que são direcionados por profissionais da educação.

Nesse sentido, a avaliação da aluna, durante a aplicação do PEI, se deu a partir de observações das atividades que ela realizava, em que a aluna demonstrou uma dificuldade na fase inicial em aprender a letra da música e os passos da coreografia, com essa análise, no início de cada aula os movimentos que foram trabalhados nas aulas anteriores eram relembrados,  uma vez com o acompanhamento da música e outra sem. Outra dificuldade observada foi a execução dos movimentos predefinidos com o ritmo da música, momento em que houve a necessidade de alterar alguns passos da oreografia, que proporcionou maior conforto e facilidade no aprendizado da aluna.

Apesar das dificuldades observadas, o acompanhamento feito por meio da avaliação processual permitiu observar que a aluna demonstrava entusiasmo e envolvimento durante a aprendizagem da coreografia, e ao aprender a letra da música foi possível perceber uma melhora significativa em sua oratória e desenvoltura.

Com o decorrer das aulas, notou-se evolução em sua coordenação motora e força, a aluna conseguia coordenar seus movimentos de acordo com o ritmo da música e possuía força para sua locomoção, alcançando assim os objetivos traçados pelo PEI.

A aplicação do PEI permitiu perceber que para a efetivação da aprendizagem e da inclusão no contexto escolar é necessário uma análise prévia do desenvolvimento do aluno que permite buscar caminhos que auxiliam no atendimento das suas particularidades que interferem na aprendizagem, participação e inclusão.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa mostrou que independente da deficiência, é necessário reconhecer o potencial do desenvolvimento humano, para isso é preciso criar possibilidades para o aluno se desenvolver. A inclusão escolar não pode ser restrita apenas ao ato de incluir um aluno com deficiência na sala de aula com direito de igualdade, mas garantir uma efetivação do processo de ensino e aprendizagem, principal finalidade do ensino escolar.

Por meio do trabalho coletivo, do planejamento de intervenção e aplicação do PEI, foi possível que a equipe de trabalho conectasse em um objetivo comum. Assim, o PEI se mostrou como um instrumento positivo que favoreceu os processos de aprendizagem e inclusão nas aulas de Educação Física.

Pletsch e Glat (2012) chamam a atenção para a necessidade de dar suporte teórico e prático para que os professores possam realizar mediações pedagógicas que favoreçam a aprendizagem e inclusão dos alunos, especialmente os que apresentam necessidades educacionais especiais. Considerando que a aprendizagem e a inclusão ocorrem no interior da escola, é indispensável pensar em um trabalho colaborativo e dialógico entre as instituições de ensino superior, responsáveis pela formação de professores, e as instituições escolares, responsáveis pelos processos de escolarização de alunos com as mais diversas características culturais, sociais e cognitivas.

Em relação ao desenvolvimento da aluna, durante o período de intervenção em que o PEI foi aplicado, foi notável uma melhora significativa em sua coordenação motora, especialmente na valência motora força e na oratória. Esses avanços em seu desenvolvimento refletiram numa maior participação nas aulas de Educação Física e contribuíram para sua autonomia no espaço escolar e em outros contextos em que ela pertence.

Pensar em diferentes estratégias pedagógicas, aplicar o PEI em uma turma que não possui apenas um aluno com necessidades específicas de aprendizagem e manter o objetivo previsto para a turma no planejamento, foram os principais desafios na realização desse trabalho.

Tais desafios oportunizaram aos professores conhecerem e identificarem as necessidades e possibilidades dos seus alunos, compreenderem que cada aluno possui características de aprendizagem diferente, o que requer estratégias e métodos de ensino diferenciados de modo que possibilitem a aprendizagem dos alunos. Assim, entendemos que os desafios geram movimentos de superação de condições que estão postas dentro da escola como insolúveis.

 

REFERÊNCIAS

Lei nº 9394/96, de 20 de dezembro de 1996. Dispõe as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Ministério de Educação e Cultura, Brasil.

Ministério da Educação (2000) Projeto Escola Viva - Garantindo o acesso e permanência de todos os alunos na escola - Alunos com necessidades especiais. Brasília, DF: Ministério da Educação: Secretaria de Educação Especial.

Cruz, M. L. R. M., Mascaro, C. A. A. C., & Nascimento, H. A. (2011) Plano de Desenvolvimento Psicoeducacional Individualizado: percurso inicial para elaboração e aplicação. Trabalho apresentado em VI Seminário Internacional –As redes educativas e as tecnologias, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Glat, R., & Pletsch, M. (Dezembro, 2009) Plano de Desenvolvimento Psicoeducacional Individualizado (PDPI): uma estratégia para favorecer o atendimento educacional especializado de alunos com deficiência mental/intelectual matriculados na escola especializada Favo de Mel. (Palestra proferida na FAETEC) Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Glat, R., & Blanco, L. M. V. (2011) Educação Especial no contexto de uma educação inclusiva. (pp. 15-35) Rio de Janeiro: Editora 7 letras.

Glat, R., Vianna, M. M., & Redig, A. G. (2012) Plano Educacional Individualizado: uma estratégia a ser construída no processo de formação docente. Ciências Humanas e Sociedade em Revista, 3 (12), 108-129.

Libâneo, J. C. (1994). Didática (2ª ed.). São Paulo: Cortez.

Munster, M. A. V., Lieberman, L., Samalote-Rivera, A., & Houston-Wilson, C. H. (2014) Plano de Ensino Individualizado aplicado à Educação Física: validação de inventário na versão português. Revista da Sobama, 15(1), 43-54.

Nascimento, H. A. (2011). O plano educacional individualizado e o currículo funcional natural como estratégias para favorecer o aprendizado de alunos com deficiência intelectual (Monografia de graduação em Pedagogia). Faculdade de Educação, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

PARANÁ. Secretaria de Estado de Educação (SEED) (2018). Núcleo Regional de Educação de Irati. Recuperado a partir de http://www.nre.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=881

Pletsch, M. D. (2009). Repensando a inclusão escolar de pessoas com deficiência mental: diretrizes políticas, currículo e práticas pedagógicas. Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Pletsch, M. D., & Glat, R. (2012). A escolarização de alunos com deficiência intelectual: uma análise da aplicação do Plano de Desenvolvimento Educacional Individualizado. Revista Linhas Críticas, 18 (35),193-208.

Poker, R. B., Martins, S. E. S. O., Oliveira, A. A. S., Milanez, S. G. C., & Mosca Giroto, C. R. (2013). Plano de desenvolvimento individual para o atendimento educacional especializado. São Paulo: Cultura Acadêmica; Marilia: Oficina Universitária.

Siqueira, C. F. O., Mascaro, C. A. A. C., Vianna, M. M., Silva, S. E., & Redig, A. G. (2012). Planos de ensino individualizados na escolarização de alunos com deficiência intelectual. In Anais do V Congresso Brasileiro de Educação Especial (p. 11671-11686). São Carlos: Galoá.

Thiollent, M. (2011). Metodologia da Pesquisa-Ação (18 ed.) São Paulo: Cortez.

Vianna, M. M., Silva, S. E. & Siqueira, C. F. O. (2011). Plano educacional individualizado – Que ferramenta é esta? In VII Encontro da Associação Brasileira de Pesquisadores em Educação Especial. Londrina-PR.


 

Contacto: Evelline Cristhine Fontana, Universidade Estadual do Centro Oeste -UNICENTRO, Rua Salvatore Renna - Padre Salvador, 875 - Santa Cruz Guarapuava - PR. 85015-430, Brasil / evellinefontana@hotmail.com


Gilmar de Carvalho Cruz, Universidade Estadual do Centro Oeste -UNICENTRO, Rua Salvatore Renna - Padre Salvador, 875 - Santa Cruz Guarapuava - PR. 85015-430, Brasil / gilmailcruz@gmail.com


Luana Aparecida de Paula, Universidade Estadual do Centro Oeste -UNICENTRO, Rua Salvatore Renna - Padre Salvador, 875 - Santa Cruz Guarapuava - PR. 85015-430, Brasil / lu_cbj_depaula@hotmail.com

 

(Recebido em fevereiro de 2019, aprovado em julho de 2019)


NOTAS

 


[1]O termo “Necessidades Educacionais Especiais”, foi empregado pela primeira vez no relatório de Warnock em 1978, na Inglaterra, passando a integrar as novas leis da educação posteriores a essa data. Esse termo também está na Declaração de Salamanca, de 1994, que se refere a todas aquelas crianças ou jovens cujas necessidades educacionais especiais se originam de deficiência ou dificuldades de aprendizagem.